quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Tatuagem e a Igreja de Cristo

Nos últimos três anos, a prática de tatuar o corpo tem se tornado cada vez mais popular. Tudo indica que esta moda veio para ficar. É fato que, mais e mais, receberemos visitantes e novos membros com tatuagens, e algumas bem místicas e mundanas! Além do mais, pressinto que já temos alguns membros sendo atraídos por essa ideia, pensando em tatuar um verso bíblico, uma palavra hebraica ou uma imagem do Cavaleiro no Cavalo Branco de Apocalipse 19 (que tinha escrito em sua coxa: Rei dos Reis e Senhor dos Senhores). Sei que esta não é uma questão crucial para o evangelho e a igreja de Cristo.  Porém, é algo que incomoda alguns e pode se tornar motivo de discórdia entre os irmãos. Como lidar com esses dilemas? Como preparar a igreja para lidar sabiamente com esta questão? Após orar, pesquisar e pensar sobre este assunto, cheguei às seguintes conclusões, que nas próximas linhas compartilho com o leitor.
Primeiro: Precisamos Ensinar o que a Bíblia diz!
Em Levítico 19:28, a Palavra diz: "Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o SENHOR".  À primeira vista, esta palavra parece resolver a questão, parece dizer: o cristão não deve fazer nenhuma marca no corpo; tatuagem é pecado. Porém, o contexto revela que o motivo desta proibição era evitar que os hebreus se identificassem com a idolatria dos caldeus. Como parte de seus rituais aos falsos deuses, os caldeus usavam lâminas afiadas para marcar o corpo. Essas marcas, ou cicatrizes, estavam diretamente relacionadas com a idolatria e culto pagão. Essa orientação era tão específica que, nos versos anteriores, Deus também proíbe outras práticas, tais como: adivinhação e feitiçaria (26). O cortar o cabelo dos lados da cabeça (deixando um tufo de cabelo no meio da cabeça) e o aparar as pontas da barba de uma maneira específica (27) - tudo estava relacionado com os rituais pagãos. (Andrew A. Bonar, A Commentary on Leviticus, The Banner of Truth Trust, Carlisle. Pensylvania, USA. Pg. 352)
Sim, acredito que este texto fala contra o uso de tatuagens ou qualquer outra prática que nos identifique com algum tipo de paganismo, idolatria, imoralidade ou tribo anticristã. Porém, não podemos aplicar este texto contra a pratica da tatuagem de nossos dias, pois os tempos passaram e a conotação mudou. Hoje, a grande maioria daqueles que se tatuam não o fazem por motivos espirituais ou religiosos, mas meramente estético/ decorativo (assim como a maioria das mulheres furam suas orelhas e usam brincos). Sendo assim, esta prática acaba enquadrando-se dentro daquelas questões relacionadas à liberdade cristã (Rm 14 e I Co 6:12).
Segundo: Precisamos Aplicar os princípios de Romanos 14 e I Coríntios 6:12
Usando os princípios destes dois textos, devemos orientar o cristão que considera fazer uma tatuagem, a fazer a seguinte autoavaliação:
  1. Será que esta tatuagem irá glorificar o Senhor Jesus? Será que ela irá promover a minha pessoa ou a pessoa Dele? (6-8)
  2. Será que esta tatuagem irá edificar os meus irmãos? Será que ela não irá entristecer ou escandalizar meus pais ou irmãos mais fracos? (15-21 e 15:1-2)
  3. Tenho plena convicção em minha consciência de que isto agrada a Deus? (leia versos 22-23)
  4. Será que isto não irá me dominar? (I Co 6:12) Esta é uma pergunta muito pertinente, porque vemos que muitos não conseguem se contentar com uma ou duas tatuagens, porém, como que numa obsessão, vão cobrindo o corpo com desenhos e mensagens.
Terceiro: Precisamos Ajudar as pessoas a considerar a questão
Os meios de comunicação não ensinam nossos membros a pensar. Nossa cultura promove o princípio da ética inconsequente, que diz: Siga o seu coração! Faça o que der na sua cabeça!  Por isso, cabe aos pastores seguir o exemplo do Mestre que desafiava as pessoas a parar, observar, considerar e decidir (Mateus 6:25-32). A Bíblia diz que devemos viver com sabedoria (Pv 24:3). Por isso, precisamos ajudar aqueles que estão considerando fazer uma tatuagem a parar e pensar no seguinte: O que será que o bom senso e os fatos dizem a respeito desta prática? Abaixo, seguem dois fatos muito importantes.
  1. Muitos se arrependem de terem feito uma tatuagem. Um estudo realizado pela Associação dos Dermatologistas Britânicos revelou que um terço dos ingleses que se tatuam se arrependem de terem feito isto. Nos Estados Unidos, na cidade de Pittsburgh, uma clínica especializada em tratamento dermatológico a laser diz que, nos últimos anos, a procura pela remoção de tatuagens cresceu em 50 por cento! E que este processo é longo, doloroso e caro. (www.hersutah.com, artigo escrito por Peter Sullivan, publicado no Pittsburgh Post-Gazette em 1 de Agosto de 2012)
  2. A tatuagem cria uma barreira social desnecessária. Muitas pessoas veem com desconfiança alguém com uma tatuagem. Por isso, uma tatuagem pode custar uma boa amizade, namoro, emprego, oportunidade comercial ou, pior, a oportunidade evangelística ou ministerial. Dr. Michael R. Mantell disse: "O mundo está dividido em dois tipos de pessoas: aqueles que têm tatuagem e aqueles que têm medo das pessoas tatuadas. Honestamente, eu fui criado entre este segundo grupo. Afinal de contas, quem eram as pessoas que usavam tatuagem em Newark, New Jersey, onde cresci? Marinheiros, criminosos, membros de seitas estranhas, roqueiros e gente ruim." (San Diego Magazine, Agosto de 2009, A Psicologia da Tatuagem – www.sandiegomagazine.com)
Quarto: Precisamos Preparar a igreja para amar os tatuados!
Como já disse no início deste artigo: nos últimos anos a prática de tatuar o corpo tem se tornado cada vez mais popular. Tudo indica que esta moda veio para ficar.  Mais e mais receberemos visitantes e novos membros com tatuagens bem místicas e mundanas. A igreja precisa ser preparada para receber os visitantes tatuados.  Assim como Jesus recebia e até comia e bebia com os publicanos e pecadores, nós devemos receber os tatuados no amor de Cristo. E, caso Deus os alcance com Sua graça é obvio que devem ser integrados ao corpo de Cristo sem nenhuma reserva. Para isto, precisamos ajudar os membros da igreja, especialmente os mais preconceituosos, a buscarem em Deus sabedoria e amor para superar suas fraquezas, e aprender a ver as pessoas como Deus vê (I Samuel 16:7); aprender a ver, por trás das tatuagens, uma pessoa criada à imagem e semelhança de Deus, ver uma alma que vale mais do que o mundo inteiro. Que Deus nos ajude a fazer tudo isto pela Sua graça, para Sua glória!
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
Sillas Campos
AutorSillas Campos
Sillas Campos é pastor da Primeira Igreja Batista de Tupã (SP). Formado em Teologia pelo San Diego Christian College (EUA) e mestrando em Teologia pela...

O que é e o que não é fé?



“Eu creio; eu creio. É bobo, mas eu creio”. Essas são palavras bem conhecidas ditas pela jovem Susan Walker no famoso filme de natal De Ilusão Também se Vive (1947). Eles fornecem um simples exemplo de como a fé é comumente retratada em nossa cultura: um salto às cegas no escuro — crendo sem qualquer razão.
Tal visão da fé, contudo, é completamente divergente do que a Bíblia ensina. Fé, de acordo com a Bíblia, não é irracional ou “boba”. Não é um comprometimento cego ou um sentimento arbitrário de proximidade com Deus. Essas coisas não são fé, do mesmo modo que não é fé um homem escolher, de olhos vendados, uma pessoa em meio a uma multidão, e pedir a ela que lhe faça uma cirurgia cardíaca. Isso não é fé de maneira alguma; é tolice, pura e simples.
O que, então, é fé? Historicamente, o cristianismo ortodoxo respondeu essa a questão distinguindo três principais elementos que, juntos, compreendem a fé salvífica. Falando de maneira geral, três palavras latinas foram usadas para identificar esses três elementos: notitia, ou “conhecimento”; assensus, ou “assentimento”; e fiducia, ou “confiança”.
Notitia
O primeiro elemento da fé salvífica é notitia, ou conhecimento, que aponta para o fato de que a fé genuína deve crer em alguma coisa. Em outras palavras, ela deve ter conteúdo intelectual. Ela não pode ser vazia ou cega, mas deve ser baseada no conhecimento de certas verdades fundamentais. Nós vemos isso por toda a Bíblia nas passagens que são distintas pela expressão “crer que”, seguida por uma proposição doutrinária de alguma natureza. Bons exemplos incluem Romanos 10.9, que afirma que “se... creres que Deus ressuscitou [Jesus] dentre os mortos, serás salvo”, e João 20.31 que diz: “Estes [sinais] foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Em cada caso, nós vemos que há um conteúdo doutrinário para a fé. Fé significa crer em certas proposições; nos exemplos citados acima, as proposições são “que Deus ressuscitou Jesus dentre os mortos” e “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.
Assensus
O segundo elemento da fé salvífica é assensus, ou consentimento; parecer favorável. Isso se refere à convicção intelectual de que o conhecimento que alguém possui é factualmente verdadeiro e pessoalmente benéfico. Não é suficiente simplesmente conhecer certas coisas. Devemos também crer que tais coisas são verdadeiras e atendem às nossas necessidades. Nós vemos esse elemento de fé retratado em passagens bíblicas como João 5.46-47; 8.31-38, 45-46; 10.37-38; 14.11.
Fiducia
O terceiro elemento da fé salvífica é fiducia, ou confiança. É de longe o mais importante dos três elementos que mencionamos. Sem esse elemento, a fé é meramente um empreendimento intelectual — muito parecida com a “fé” dos demônios que sabem a verdade sobre Jesus, mas se recusam a confiar nele porque odeiam o que eles sabem ser verdadeiro (Tg 2.19; Mt 8.29). Esse elemento consiste em uma confiança pessoal em Cristo como ele é oferecido no evangelho, e uma completa confiança nele para a salvação. Ele é visto em passagens que falam sobre crer “em” Jesus (por exemplo, Jo 3.15-16; Rm 9.33; 10.11) e em passagens que falam de “inclinar-se” ou “repousar” sobre Jesus (Sl 71.5-6; Pv 3.5-6), “olhar” para ele (Jo 6.40; Hb 12.1-2), e “comprometer-se” com ele (2Tm 1.12; Mt 11.28; Sl 37.5).
Os três elementos ilustrados
Considere a seguinte ilustração. Imagine que quatro pessoas são lançadas sem comida ou água no meio de um campo muito extenso cheio de minas terrestres. Suponha que um dos indivíduos cegamente escolha um caminho pelo campo e siga naquela direção sem hesitar. Esse não é um exemplo de fé, mas é mais como aquela tolice da qual falamos anteriormente. Fé genuína não é cega; é baseada em conhecimento.
Mas suponha que um helicóptero apareça sobre os três homens que restaram, e do helicóptero, uma parte interessada anuncia o caminho pelo campo minado. Um dos homens confia na palavra da parte interessada e caminha de uma vez pelo campo minado. Isso também não é um exemplo de fé. Sim, as ações do homem são baseadas em conhecimento (o testemunho da parte interessada) e consentimento (o homem considera o testemunho como verdadeiro e benéfico em atender as suas necessidades). Mas a sua ação ainda é cega, pois é baseada em conhecimento insuficiente (isto é, o testemunho incerto de um completo estranho). Ela também carece do mais importante elemento da fé: confiança pessoal naquele que fala.
Suponha, contudo, que os dois homens restantes façam certas perguntas à parte interessada para discernir como ele veio a conhecer o caminho correto do campo, por que ele quer ajudá-los e o quão certo ele está de que pode guiá-los seguramente através das minas terrestres. Suponha que eles também peçam referências da parte interessada para ver se ele conhece alguém que eles conheçam ou a quem sejam relacionados. Suponha que eles até mesmo tentem testar as suas instruções, lançando objetos na direção que ele sugere para ver se parece estar livre de minas. Ao fazer tais coisas, os dois homens restantes estão reunindo conhecimento suficiente para decidir se podem confiar no indivíduo do helicóptero. Essa confiança (fiducia), que é edificada sobre um conhecimento (notitia) e consentimento a tal conhecimento (assentus), é do que se trata a fé. Tal fé não é “boba” de maneira nenhuma, mas completamente razoável.
Fé demonstrada em obras
Quando todos os três elementos da fé estão presentes, eles necessariamente se manifestarão em boas obras. Se considerarmos a ilustração acima, podemos ver que os dois homens restantes demonstram a genuinidade da sua fé (ou a falta dela) por aquilo que eles fazem. Se eles escolhem ficar onde estão e se recusam a seguir instruções do homem no helicóptero, ou se eles seguem em sua própria direção, eles demonstrarão que não creem de verdade. Mas se eles genuinamente confiam no homem no helicóptero, eles seguirão na direção para a qual ele aponta. Eles seguirão suas instruções (à la João 14.15). As suas ações vão demonstrar a genuinidade de sua fé.
Quando notitiaassensus e fiducia estão presentes juntos, há verdadeira fé. E quando há verdadeira fé, boas obras necessariamente seguirão. Boas obras não são parte da fé; elas fluem da fé. É somente a fé que recebe o dom de Deus da justificação, mas fé que justifica nunca estará sozinha; ela sempre se manifestará em boas obras.
O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
Guy Richard

Visão, Lugar e a Presença de Deus




Há grande debate e controvérsia em nossos dias sobre qual é a adoração correta diante de Deus. Como eu tenho lutado com essa questão, continuo voltando ao Antigo Testamento. Eu sei que essa é uma prática perigosa, porque agora vivemos na era do Novo Testamento, mas o Antigo Testamento nos dá instruções detalhadas e específicas sobre a adoração, enquanto o Novo Testamento é quase que silencioso a respeito desta conduta. No Antigo Testamento, eu encontro um refúgio da especulação, da opinião do homem e dos caprichos do gosto e da preferência humana, porque lá eu encontro o próprio Deus exigindo explicitamente que certas coisas aconteçam na adoração. Eu acredito que é possível e correto extrair princípios para a adoração do Antigo Testamento, pois os livros do Antigo Testamento continuam fazendo parte do cânon das Escrituras e, mesmo que haja certa descontinuidade entre o Antigo e o Novo Testamento, há também uma continuidade que não devemos desconsiderar.
Um dos princípios que aprendi do Antigo Testamento é esse: a pessoa deve ser envolvida por inteiro na experiência da adoração. Certamente, as mentes, os corações e as almas dos adoradores devem estar envolvidos, mas quando vamos ao culto no domingo pela manhã, não chegamos com as mentes, os corações ou as almas desencarnados. Nenhuma das nossas experiências é puramente intelectual, emocional ou espiritual. A experiência da vida humana também envolve aspectos físicos. Isso significa que todos os cinco sentidos estão envolvidos na experiência da vida. Somos criaturas que vivem a vida não apenas com as nossas mentes, corações e almas, mas com os nossos sentidos de visão, audição, olfato, paladar e tato.
Eu não tenho espaço suficiente neste breve artigo para abordar como os cinco sentidos estão envolvidos na adoração, ou mesmo para explorar todas as dimensões de apenas um desses sentidos. Então, quero considerar apenas uma forma pela qual o sentido visual pode ser impactado, para que os nossos corações sejam movidos a adorar.
Pesquisas rotineiramente nos dizem que as duas razões principais pelas quais as pessoas ficam longe da igreja são porque elas acham o culto chato e a igreja irrelevante. Essas razões, especialmente a primeira, me deixam surpreso. Eu sempre disse que, se o próprio Deus anunciasse que ele apareceria na minha igreja num domingo de manhã, às 11 horas, pessoas compareceriam a ponto de algumas ficarem em pé somente nessa hora marcada do culto. Tenho certeza de que ninguém que viesse a esse culto e testemunhasse a chegada de Deus iria embora depois, dizendo: “Eu fiquei entediado”. Quando lemos os relatos bíblicos de encontros de pessoas com Deus, podemos ver todas as gamas de emoções humanas. Algumas pessoas choram, algumas clamam de medo, algumas tremem, algumas desmaiam. No entanto, nunca lemos sobre alguém que tenha ficado entediado na presença de Deus.
Então, visto que a adoração é, em seu sentido mais básico, um encontro com Deus, como podemos explicar as pesquisas que nos dizem que as pessoas saem entediadas da igreja? Devo concluir que elas não estão experimentando a presença de Deus em nenhum sentido. Isso é trágico, porque se as pessoas não sentem a presença de Deus, elas não podem ser movidas a adorar e a glorificar a Deus.
Um dos elementos que ajudam as pessoas a sentir a presença real de Deus é a forma do ambiente de culto. Eu gostava de perguntar aos meus alunos do seminário, que eram protestantes, se eles já haviam estado em uma das grandes catedrais góticas católicas romanas. Muitos haviam estado, por isso eu lhes pedia para compartilhar suas profundas reações ao andarem por uma catedral. A maioria dizia: “Tive uma sensação de temor” ou “Eu senti a transcendência de Deus”. Isso me dava a oportunidade de mostrar como a arquitetura das catedrais, o formato do ambiente de culto nessas construções, colocava meus alunos no “clima” para a adoração, por assim dizer. É claro, as catedrais foram projetadas para despertar essa exata reação. Grande cuidado e reflexão foram empenhados no projeto das catedrais. Os projetistas queriam um formato que estimulasse nas pessoas uma sensação da sublimidade de Deus, da alteridade de Deus. Eu me entristeço ao ver que os protestantes não costumam ter o mesmo cuidado no projeto das igrejas. Nossos ambientes de culto são muitas vezes práticos. Os templos são projetados de acordo com o design de cinemas ou estúdios de televisão. Tais ambientes não têm nada de errado, mas muitas pessoas testemunhariam que esses ambientes não as inspiram à adorarem da mesma forma que o interior das igrejas tradicionais fazem.
Cabe a nós, penso eu, observar o grande cuidado com o qual Deus deu ao seu povo os planos para o tabernáculo, o primeiro ambiente de adoração. Como o templo que veio em seguida, o tabernáculo era um lugar de beleza, glória e transcendência. Era como nenhum outro lugar  na vida do povo de Deus. Precisamos entender que a arquitetura da nossa igreja comunica algo aos nossos sentidos visuais e, portanto, essa arquitetura pode favorecer ou dificultar a nossa percepção da presença de Deus.
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R. C. Sproul
AutorR. C. Sproul
R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. É ministro presbiteriano, pastor da igreja St. Andrews Chapel, na Flórida. É...

quinta-feira, 27 de março de 2014

Pregue ao descrente, ao crente e ao membro de igreja


Para quem os pregadores pregam? Eu recentemente tomei da estante alguns livros sobre pregação e descobri que essa questão raramente é abordada. Os pregadores parecem muito mais preocupados em refinar o seu estilo.
Ainda assim, alguns pastores estão dando atenção aos ouvintes, e eles tendem a focar em dois segmentos da população: os desigrejados e os pós-modernos. James Emery White, presidente do Gordon Conwell e pastor da Igreja Comunidade Mecklenburg em Charlotte, Carolina do Norte, afirmou certa vez que ele explicitamente tinha por alvo os descrentes. Ele pôs dessa forma em uma entrevista dada em 1999:
Mecklenburg é uma igreja direcionada para o visitante, que foi fundada [para] ... focar em pessoas desigrejadas. Por “direcionada ao visitante” eu obviamente quero dizer que os pontos básicos da igreja são planejados para pessoas desigrejadas. De alguma maneira ou forma, nós podemos dar-lhes um empurrãozinho quando eles estão em modo busca, ou nós tentamos ajudá-los a tornarem-se pessoas ativas nessa busca. Pois nem todos os que são desigrejados estão em busca de uma igreja. [1]
Uma vez que o sermão é um desses “pontos básicos”, White seguiu os passos de homens como Bill Hybels, Bob Russel e Rick Warren, os quais se destacam entre os demais pregadores por sua habilidade de falar aos desigrejados. [2]
Um outro grupo de escritores enfatiza a importância de pregar para a mente pós-moderna. O outrora pastor Brian McLaren disse que sua pregação começou a ser afetada, em 2001, ao refletir acerca da aversão pós-moderna à performance e à análise detalhada, juntamente com a sua inclinação para a autenticidade e a narrativa. Agora, narrativa e autenticidade são centrais em sua pregação. [3]
Esses dois exemplos deixam alguns de nós nervosos. Quando um pregador vai muito longe em adaptar-se à sua audiência, a própria mensagem fica comprometida, o que ocorreu tanto nas igrejas “sensíveis ao visitante” como nas igrejas emergentes. Ainda assim, pregadores pregam para pessoas reais, pessoas que são desigrejadas, pós-modernas, e tudo mais que pudermos pensar. O desafio é oferecer alguns pensamentos a todos os tipos de pessoas sentadas na congregação. Este artigo humildemente se esforça para fazê-lo.
Eu sugiro que os pastores preguem com três tipos de pessoas em mente.
Pregue aos não-convertidos
É sempre bom considerar os não-cristãos em um sermão na manhã de domingo, mesmo se sua igreja for pequena e não-cristãos não estiverem presentes. Minha igreja não é grande, porém, mesmo assim, eu presumo que algumas das pessoas sentadas nos bancos não conhecem a Cristo. Algumas delas são cristãos nominais, que podem ter professado Cristo e estar em igrejas por anos, mas ainda necessitam do novo nascimento para trazer-lhes vida verdadeira. Outros são não-cristãos professos que nossos membros convidaram. Ainda há outros que atravessaram a rua em resposta a um cartão de igreja, um boletim, o site, ou o próprio prédio. Em outras palavras, não-cristãos virão.
E daí?
Esclareça o Evangelho
É responsabilidade do pregador esclarecer o evangelho à medida que ele explica a Palavra de Deus. Paulo escreveu:
Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa a respeito da salvação. (Romanos 10.9-10)
Nós somos, no fim das contas, ministros do evangelho.  O evangelho não precisa soar da mesma maneira em cada sermão. Mas, seja lá como for explicado, o pastor deve perguntar em face da passagem: “Como ela aponta para o evangelho?”. Mesmo os descrentes podem reconhecer a diferença entre um sermão centrado no evangelho e um sermão no qual o evangelho é apenas encaixado no final.
Minha igreja fica próxima a um seminário, e nós temos muitos homens que estão sendo treinados para ser pastores e que frequentemente perguntam: “O evangelho precisa mesmo estar em cada sermão?”. A resposta é “sim” por pelo menos duas razões. Primeiro, porque o evangelho compreende cada texto da Escritura de Gênesis a Apocalipse. Segundo, porque o não-convertido precisa saber o que significa “confessar Jesus como Senhor e crer no coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos”. (Cristãos necessitam ouvir isso de novo e de novo, também, a fim de crescer na fé!) Mesmo que o descrente tenha ouvido o evangelho dúzias de vezes, Deus o trouxe a mim como pregador – hoje. Então eu quero que o evangelho desafie mais uma vez o seu entendimento do mundo, do pecado e da salvação.
Esclarecer o evangelho é uma das coisas mais importantes que eu posso fazer como pastor.
Pregue expositivamente
Pastores que são sensíveis à presença de não-cristãos os servirão melhor ao pregarem expositivamente. Não-cristãos desejam saber por que nós cremos no que cremos. Uma vez que a nossa doutrina e vida são fundamentadas na Palavra de Deus, nós servimos melhor os desigrejados ao direcioná-los honesta, fiel e claramente para a Escritura, assim como nós fazemos com cristãos.
Um movimento de escritores e líderes de igreja hoje afirma que a mente pós-moderna – igrejada e desigrejada – responde melhor à “pregação narrativa”. Eles argumentam que as pessoas querem ouvir histórias. Tudo bem, eu gosto de histórias. Pregar expositivamente deveria prover aos desigrejados o enredo da Bíblia, o qual, por sua vez, provê um enredo da obra de Deus na humanidade, o qual, por sua vez, provê um enredo para as suas próprias vidas. Os pastores não apenas deveriam lidar com toda a Escritura à medida que pregam expositivamente; eles deveriam fazê-lo com o objetivo de dar aos seus ouvintes “um retrato mais amplo de Deus”. Isso é pregação amigável com o visitante. [4]
O mesmo movimento afirma que a mente pós-moderna valoriza autenticidade. Tudo bem, eu também gosto de autenticidade. É uma desculpa perfeita para pregar expositivamente. Vamos focar menos na forma e mais na mensagem: O que Jesus disse? O que Isaías profetizou? O que Paulo escreveu? E o que as respostas a essas perguntas têm a ver conosco hoje? Isto é o que desejam os não-convertidos que aparecem em nossas igrejas: a verdade bíblica sem penduricalhos.
Se elas irão finalmente concordar com aquela verdade é algo entre elas e Deus; mas o conteúdo do que pregamos é inegociável.
Alcance os não-convertidos
Há diversas coisas que nós podemos fazer para tornar os nossos sermões evangelísticos. Identificar os números grandes e pequenos como capítulos e versículos é útil para o desigrejado. Também é útil dizer-lhe para usar o sumário da Bíblia. Que palavra de conforto para um visitante não-convertido, quando todos ao seu redor parecem achar Obadias com tanta facilidade!
Introduções provocativas ao sermão também ajudam a construir uma ponte para o descrente ao explicar a relevância do texto que está para ser exposto. Por exemplo, no último Domingo de Páscoa, eu preguei em Lucas 5.33-39, no qual os fariseus ficam perplexos com o fato de que os discípulos de Jesus não estavam jejuando. Jesus responde observando que os convidados de um casamento não jejuam enquanto o noivo está presente, e então conta a parábola do vinho novo em odres velhos. Eu intitulei o sermão assim: “São os cristãos mais felizes?”. Aquela introdução foi uma oportunidade para explicar que a alegria verdadeira, duradoura e transformadora consiste em estar na presença do noivo ressurreto, Jesus Cristo. Foram os cristãos ajudados pela introdução? Eu espero que sim, mas eu vi aqueles dois ou três minutos como uma oportunidade especial para alcançar o não-convertido que poderia necessitar de alguma ajuda especial acerca do motivo pelo qual nós nos reunimos em torno da Palavra de Deus.
Todas essas “pequenas” práticas têm também um efeito cumulativo na congregação. Quando os crentes reconhecem que o púlpito é amigável com o não convertido, eles se tornam mais dispostos a trazer os seus amigos não-cristãos. É incorreto pensar que sermos centrado no evangelho signifique que não podemos ser sensíveis ao visitante.
Pregue aos convertidos
Por mais importante que seja pregar para o não-convertido, a tarefa principal do pregador no Dia do Senhor é dirigir-se aos cristãos. Ele deve edificar a igreja local; e a igreja deve ouvir, pronta e desejosamente, a fim de submeter-se a Cristo como o cabeça da igreja. Essa é a nossa principal “audiência”. Assim, na minha própria preparação para o sermão, eu tenho em mente sobretudo os convertidos.
Como então o pregador deve abordar os cristãos?
Repreenda e corrija os cristãos
Nós sabemos a partir de João que o pecado persiste na vida do crente: “Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1.10). Há uma espécie de alfinetada nesse versículo, como se João soubesse que os crentes são tentados a minimizar o seu pecado, elevar a sua santificação e negar ao Senhor. Além disso, Paulo escreveu: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16). Assim, quando um pastor está pregando para cristãos, a verdade da Palavra de Deus necessariamente há de repreender e corrigir.
Nenhum pastor quer ser conhecido por abater cristãos. Ainda assim, a fidelidade à Escritura requer que um homem esteja apto para repreender no devido tempo. Essa é uma razão pela qual o chamado para a pregação não deveria ser aceito levianamente. Ser fiel a essa tarefa requer que nos perguntemos em face de cada texto que pregamos: “Como esta passagem repreende ou desafia o cristão?”. Ela desafia a falta de oração, a fofoca, ou a idolatria? A resposta pode levar em consideração a igreja local do pastor ou aquilo que é aplicável a todos os cristãos. De todo modo, pregar sem repreensão e correção não pode ser considerado pregar de modo plenamente bíblico.
Sustente e encoraje os cristãos
Ainda bem, pregar ao convertido significa mais do que repreender e corrigir. Significa trabalhar para sustentar e encorajar os crentes com a Palavra de Deus. O crente é completamente dependente da Palavra. Como Jesus disse, “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4; Dt 8.3). Isso significa que, quando o cristão vem para ouvir o sermão, ele está vindo para ser nutrido pelas palavras da vida.
É claro que o crente pode ser alimentado pela Palavra de Deus durante outros períodos da semana, mas a pregação exerce um papel central em seu sustento. Considere Tito 1.1-3, em que Paulo descreve como a vida eterna se manifesta na Palavra de Deus, através da pregação. Cristãos são nutridos e sustentados por sermões. Uma pergunta para fazer em face de cada texto é: “Como isso sustenta, preserva ou encoraja o cristão?”.
Poucas coisas me encorajam mais no meu ministério de pregação do que isto: a igreja se reúne porque os crentes necessitam da vida que é concedida através da palavra pregada, não porque eles necessitam de mim! Essa é simplesmente a tarefa que eles me deram para executar, a refeição espiritual que eles me comissionaram para preparar. Que privilégio ser usado por Deus para sustentar, nutrir, construir e edificar o seu povo com a sua Palavra!
Santifique e fortaleça os cristãos
O Filho orou para que os filhos do Pai fossem santificados e tornados mais semelhantes a Cristo. Jesus sabia que os seus seguidores haveriam de suportar toda sorte de sofrimentos e escárnios por terem recebido a sua palavra (Jo 17.14), mas ele não orou para que eles fossem tirados do mundo. Ao invés disso, ele orou para que eles fossem santificados. Como os cristãos haveriam de se tornar mais santos? Jesus orou: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A mensagem de Deus haveria de santificar os filhos de Deus. Cristãos são feitos santos ao apreender e aplicar as Boas Novas e toda a Escritura à sua vida (cf. 2Tm 3.17). Uma palavra santa torna um povo santo.
É claro que a santificação é principalmente uma obra de Deus. Ele é aquele que opera na vida do crente (Fp 2.13; Hb 13.20-21) e que assegura que os crentes terão tudo de que necessitam para dar a Ele glória e honra. Isso é exatamente o que acontece à medida que ele conduz os santos para se congregarem e para ouvirem as verdades da sua Palavra. Não é surpreendente que eles sejam estimulados “ao amor e às boas obras” (Hb 10.24).
Pregadores têm oportunidades gloriosas de serem usados na vida de pecadores a fim de fortalecê-los para a tarefa de prosseguirem na vida cristã. No Salmo 1, o homem bem-aventurado que se deleita na lei de Deus é assemelhado a uma árvore plantada junto às correntes de água, uma árvore que é frutífera e robusta. A analogia não é difícil de entender. O cristão é frutífero e robusto quando se alimenta e se deleita na lei do Senhor. Sermões exercem um papel em guiar o cristão para meditar na lei de Deus. Embora o pregador não possa produzir homens bem-aventurados (ainda bem que isso é tarefa de Deus e do Seu Espírito!), a ele é dado o grande privilégio de alimentar o povo de Deus com a Palavra de Deus. O pregador pode ser como aquelas correntes de água, entregando fielmente a Palavra de Deus e fortalecendo aquela árvore semana após semana, mês após mês, ano após ano.
Diferentemente do contador que confere os livros contábeis no final do mês, ou do diretor executivo que observa a empresa reerguer-se, quem sabe se o pregador jamais verá o fruto que nasce, as vidas que são transformadas, os corações que são tocados! O melhor trabalho de um pastor não pode ser medido deste lado do céu. Esse tipo de fruto não pode ser recolhido em cestos. Não obstante, o fruto está lá. A pregação da Palavra de Deus, por sua graça, santifica e fortalece o pecador e o prepara para as suas próprias obras de graça.
Desafie e edifique os cristãos
Discípulos precisam crescer no seu entendimento e interpretação da Escritura. Eles tendem a ser muito descuidados ao ingerirem os sermões, de modo bastante distinto daqueles bereanos de Atos 17, os quais examinavam o que ouviam a fim de verem se era verdade. Uma pregação expositiva sólida irá desafiar o discípulo dando-lhe algo em que pensar e examinar. Criticando a pregação rasa, James W. Alexander certa vez afirmou:
Nesses sermões, nós encontramos muitas verdades bíblicas valiosas, muitas ilustrações originais e comoventes, muitos argumentos sólidos, exortações pungentes e grande unção. Considerados em si mesmos, e vistos como orações de púlpito, eles não parecem dar margem a sequer uma objeção; ainda assim, como exposições da Escritura, eles são literalmente nada. Eles não esclarecem quaisquer dificuldades no argumento dos escritores inspirados; não fornecem perspectivas amplas do campo no qual o seu assunto se desenvolve; eles podem ser repetidos a vida inteira sem contribuírem no menor grau para educar a congregação em hábitos de sólida interpretação. [6]
Sermões que desafiam e edificam os cristãos não precisam ser ásperos ou difíceis de entender (tal pregação seria infiel e sem sentido, de todo modo!). Ainda assim, os sermões que desafiam e edificam os cristãos são sermões pregados por homens que se debruçaram sobre o texto. Um pastor que dedica o seu tempo à preparação do sermão praticamente não precisa perguntar em face do texto: “Como esta passagem desafia ou edifica o cristão?” – a Palavra de Deus está completamente engajada em alcançar o propósito para o qual Deus a designou (Is 54.10-11). O seu esforço dará fruto à medida que a congregação colhe a recompensa da sua diligência.
Na minha igreja, nós nos esforçamos para ser fiéis à Escritura, seja quando pregamos em uns poucos versos, seja quando pregamos um livro inteiro em poucos sermões, como eu recentemente fiz com o livro de Jó. Pela primeira vez em anos, estudantes universitários estão entrando na igreja porque a pregação os desafia a crescerem. Um casal mais velho recentemente me disse que eles gostam de vir porque os sermões os ajudam a terem discussões espirituais durante o almoço. Eu não acho que alguém diria que fazemos um trabalho maravilhoso de comunicação com o mundo, e certamente ninguém diria que minha pregação é empolgante. Há muito espaço para aperfeiçoar. Mas, pela graça de Deus, nós estamos abrindo a Palavra de Deus – e isso é empolgante e transformador!
Cristãos procuram pregações que são fiéis à Escritura, o que significa pregação que inclui repreensão e correção, sustento e encorajamento, santificação e força, desafio e edificação.
Agora que nós abordamos a pregação tanto para não cristãos como para cristãos, pode parecer um lugar natural para terminarmos. Mas os pregadores devem estar sensíveis a mais uma categoria: os membros de igreja.
Pregue aos membros de igreja como um corpo congregacional
Na maioria das igrejas, a maior parte da congregação é composta pelos homens e mulheres que assumiram um compromisso com aquele lugar, com aquele ministério, e com os demais membros. Isso deveria influenciar a sua pregação? Eu penso que sim.
Paulo descreveu a congregação dos santos em Colossos como “retendo a cabeça, da qual todo o corpo, suprido e bem vinculado por suas juntas e ligamentos, cresce o crescimento que procede de Deus” (Cl 2.19). Esses não eram simplesmente discípulos, eram discípulos arraigados na igreja Colossense os quais cresciam o crescimento que procede de Deus. Em Colossenses 3.15-16, Paulo continua: “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração”. Observe que Paulo dirigiu-se a essa igreja local como um corpo e os lembrou de que eles deveriam estar unidos pela Palavra de Cristo. E isso aconteceria à medida que eles se reunissem juntos para cantar a Escritura e ouvir a Escritura sendo pregada.
Paulo não se dirige aos cristãos, aqui, como cristãos individuais, mas como membros de uma igreja em particular. A sua reunião trazia unidade não porque eles ficavam geograficamente mais próximos, mas porque a Palavra de Cristo vinha habitar neles à medida que eles compartilhavam do mesmo ensino e da mesma admoestação. Eles estavam sob a mesma autoridade porque eles reconheciam Cristo como a sua cabeça.
O mesmo é verdade em uma igreja local hoje, e um dos meios pelos quais a unidade é promovida é através da pregação da Palavra de Deus. João Calvino afirmou isso ao descrever o ofício do pregador. O pregador é aquele que traz unidade ao corpo. Comentando Efésios 4 e discorrendo acerca da unidade da igreja em torno de uma só esperança, Senhor, fé e batismo, Calvino escreveu:
Nestas palavras, Paulo mostra que o ministério dos homens a quem Deus usa para ordenar a Igreja é um elo vital para unir os crentes em um só corpo... O modo como ele [Deus] opera é este: ele distribui os seus dons para a Igreja através de seus ministros e assim demonstra que Ele mesmo está presente ali, ao empregar o poder do seu Espírito, impedindo-os de se tornarem inúteis e infrutíferos. Desse modo, os santos são renovados e o corpo de Cristo é edificado. Desse modo, nós crescemos em todas as coisas para aquele que é a Cabeça e nos vinculamos uns aos outros. Desse modo, nós somos todos trazidos à unidade de Cristo e, à medida que a profecia floresce, nós recebemos os seus servos e não desprezamos a sua doutrina. Quem quer que tente afastar-se deste padrão de ordem na Igreja, ou escarneça dele como se fosse de pequena importância, está conspirando para arruinar a Igreja. [7]
Por que enfatizar tanto os membros da igreja como um corpo coletivo, quando tantas igrejas estão crescendo ao enfatizar os não-membros? Porque a Bíblia enfatiza aqueles indivíduos que são parte da igreja local, como nós podemos ver nas epístolas do Novo Testamento. O cristianismo emergiu no contexto de pessoas de diferentes origens que, juntas, compartilhavam o evangelho – isso era a igreja. E isso tinha implicações radicais. Como Paulo escreveria, “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1Co 12.26). Essa é uma comunidade que “arregaça as mangas” e se envolve na vida do outro.
A pregação bíblica deveria regularmente dirigir-se aos cristãos não apenas como indivíduos, mas como indivíduos que assumiram um compromisso uns com os outros como um corpo local específico. Pergunte em face de cada texto: “Como esta passagem se aplica à nossa vida como uma comunidade de fé?”. Pode parecer estranho dirigir-se apenas aos membros da igreja, mas que visão constrangedora da igreja isso provê, tanto para os desigrejados como para aqueles cristãos que escolhem flertar com a igreja ao invés de comprometerem-se de fato com ela! O pastor mostra a sua apreciação por aqueles cristãos que tornaram-se membros da igreja e, mais importante, o seu amor pela Palavra de Deus que une os membros de sua igreja quando ele se dirige a eles, diretamente e coletivamente, na pregação.
Conclusão
Enquanto eu meditava na questão “Para quem o pregador prega”, fui impactado com as palavras de Peter Adam, vigário da paróquia anglicana de St. Jude, em Carlton, na Austrália, que escreveu: “se nós somos servos de Deus e de Cristo, e servos da sua Palavra, então o chamado do pregador é também para ser um servo do povo de Deus”. [8] Sim, eu acho que o pregador deve estar sensível aos desigrejados. Mas, se nós focarmos apenas nos desigrejados, a mensagem pode se perder, ou ser de tal modo diluída que o povo de Deus termine ficando desnutrido. Essa não é uma bela visão. É importante pregar para o desigrejado, mas é mais importante focar primariamente nos cristãos e lembrar o valor de dirigir-se regularmente àqueles crentes que assumiram um compromisso com a igreja local.
Notas:
1. "Preaching to the Unchurched: An Interview with James Emery White" em Preaching with Power: Dynamic Insights from Twenty Top Communicators, ed. Michael Duduit (Grand Rapids, MI: Baker Books, 2006), 227.
2. Ibid., 230.
3. "Preaching to Postmoderns: An Interview with Brian McLaren" em Preaching with Power: Dynamic Insights from Twenty Top Communicators, ed. Michael Duduit (Grand Rapids, MI: Baker Books, 2006), 126-27.
4. A fim de ajudar na exposição desse enredo, pregadores expositivos considerarão estes pequenos livros úteis: The Symphony of Scripture: Making Sense of the Bible’s Many Themes (1990) por Mark Strom; God’s Big Picture: Tracing the Storyline of the Bible (2002) por Vaughan Roberts; e Gospel and Kingdom, agora disponível em The Goldsworthy Trilogy (2000). Essas introduções à teologia bíblica podem ajudar a comunicar a unidade da Escritura ao pregar ao longo da Bíblia.
5. Ver o capítulo de Mark Dever sobre pregação expositive em Nine Marks of a Healthy Church (Crossway, 2004).
6.  J.W. Alexander, Thoughts on Preaching (Carlisle, PA: Banner of Truth, Date), 239.
7. John Calvin, The Institutes of the Christian Religion, ed. Toney Lane and Hilary Osborne (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1986), 245.
8. Peter Adam, Speaking God’s Words: A Practical Theology of Expository Preaching (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1996), 130.
Aaron Menikoff
AutorAaron Menikoff
Aaron Menikoff é presbítero na Igreja Batista da Avenida Terceira em Louisville, Kentucky, escritor para o Kairos Journal, um jornal on-line para...

Enfrentando Ataque e Traição de Membros da Igreja


Uma das situações mais dolorosas com que você se depara no ministério ocorre quando aqueles que são seus maiores apoiadores se voltam contra você. Posso lembrar que tremi ao ler estas palavras de Spurgeon: “Prepare-se para quando o seu mais querido irmão o trair”. O quê? Você está dizendo que isso acontecerá.
Em mais de 16 anos de ministério, ainda posso lembrar a carta mais dolorosa e odiosa que já recebi. Era de um dos mais queridos apoiadores e defensores de meu ministério e de mim mesmo, um irmão que acabara de deixar a igreja por causa de uma decisão difícil que tivemos de tomar e que o afetava pessoalmente.
Como você enfrenta esse tipo de traição? 3 sugestões:
Reaja com longevidade em mente. A reação natural que todos temos é lidar como se o problemaTIVESSE de ser resolvido agora mesmo. O fato é que raramente temos o poder de produzir qualquer tipo de reconciliação entre nós e a parte ofendida, especialmente se eles interrompem a comunhão e abandonam a igreja. Isso não significa que não tentamos, mas o fato é que freqüentemente a reconciliação não acontece com rapidez. Isso nos leva à próxima sugestão.
Não diga nem faça qualquer coisa que você lamentará anos depois. Embora o pastor seja freqüentemente o alvo, ele também tem o poder e as condições na igreja para manipular a situação em seu favor. Por exemplo, pessoas saem furiosas por causa de uma situação, e na próxima assembléia a congregação quer saber por quê. Quando me vi nessa situação e fui tentado a expressar para a congregação, naquele momento, toda a mágoa, ira, frustração e desapontamento, não o fiz pela graça de Deus. Não cometa esse erro. Eu queria, mas não parecia correto. Quando olho para trás e recordo aquela assembléia, atacar verbalmente aquelas pessoas que não estavam presentes teria sido pecaminoso e teria fechado a porta para uma reconciliação futura com elas, anos depois. Por isso, permaneci em silêncio.
Assegure-se de ter outros homens ao seu redor para ajudá-lo a discernir as acusações. Essa é a razão por que você precisa de outros pastores ao seu redor. Um ataque pessoal contra você, seu caráter e seu ministério exige uma opinião mais objetiva para avaliar acuradamente as acusações. Um ataque pessoal dirigido por um membro de igreja amado sempre incitará as emoções que obscurecerão o seu julgamento. Deixe que outros pastores que o conhecem bem e podem falar honestamente sobre a sua vida avaliem as críticas. Há verdade nelas? Outros homens biblicamente qualificados em sua igreja que conhecem a pessoa que o ataca serão os seus melhores meios de discernimento. Então, submeta-se a esses homens.
A razão por que resolvi escrever sobre isto é esta carta significativa que recebi na semana passada. Foi escrita pela mesma pessoa que escreveu a mais dolorosa carta que mencionei antes. A essência da carta é resumida nesta seção:
Por vários anos, tenho lutado contra a idéia de escrever-lhe. Realmente, eu não sabia o que dizer ou como tratar do assunto. Quero pedir-lhe perdão pela carta que lhe escrevi quando deixei a igreja. Senti-me magoado e traído por você, quando na realidade eu estava enganado. Por favor, aceite meu sincero pedido de perdão.
Uma carta bastante amável foi também enviada para minha esposa. Quão bondoso é o Senhor para nós nesses momentos! Embora eu ainda sustente a decisão que tive de fazer, certamente fiz algumas decisões dolorosos em meio ao processo de lidar com aquela situação desagradável. A carta mais recente nos levou, eu e minha esposa, a refletir sobre a humildade genuína dessa pessoa e sobre a graça de Deus o dom da reconciliação com alguém que era e ainda é muito querido para nós.
Infelizmente, como muitos de vocês, também poderia escrever este post sobre outras situações que ainda não foram resolvidas, e lágrimas se formam em meus olhos quando penso nesses relacionamentos desgastados. Isso sempre fará parte do ministério pastoral. No entanto, estou aprendendo que o horário de Deus para essas questões é comumente bem mais devagar do que o nosso. Deus nos amadurece como pastores à medida que esperamos. Portanto, enquanto isso, nos dolorosos momentos de traição, atente para estas sugestões. Apegue-se a Cristo como sua consolação, alegria e aquele que sempre estará com você nesses momentos. Não esqueça de pedir a Deus que um dia restaure qualquer relacionamento que ainda está rompido. Estou aprendendo com a admirável bondade e poder de Deus. Ele é capaz.
Traduzido por: Wellington Ferreira
Do original em inglês: Facing Attack and Betrayal from Church Members
Brian Croft
AutorBrian Croft
Brian Croft é o pastor efetivo da Auburndale Baptist Church em Louisville, Kentucky. Ele também é autor de "Visit the Sick: Ministering...

Uma Versão mais Branda do Evangelho da Prosperidade

David Schrock24 de Março de 2014 - Igreja e Ministério
Enquanto os evangélicos tradicionalmente desacreditaram o evangelho da prosperidade em sua forma “violenta”, há uma forma mais atenuada desse ensino que é comum até demais entre nós.[1] Frequentemente não detectado por cristãos bíblicos, ele minimiza o evangelho e leva seus adeptos a focar em coisas como planejamento financeiro, dieta e exercício, e estratégias de aperfeiçoamento pessoal, que oferecem miraculosas e imediatas saúde e riqueza. Essa variedade mais branda e sutil desafia os crentes a irromperem para uma vida de bênçãos por meio da técnica prescrita pelo pastor mais recente.
Obviamente, questões de mordomia pessoal como dinheiro, saúde e habilidades de liderança deveriam ser entrelaçadas em uma completa teologia bíblica de discipulado cristão. O problema vem quando os cristãos, especialmente os pastores, depositam grande ênfase a essas questões secundárias. O que escolhemos pregar ou ouvir diz muito sobre o que valorizamos; e o que eu vejo entre alguns evangélicos é uma disposição de priorizar essas questões menores da lei, acima das mais importantes misericórdias do evangelho.
Essa não é uma preocupação nova. Outros já descreveram as facetas desse evangelho da prosperidade com nomes como deísmo moralista terapêutico, cristianismo sem Cristo e mercantilização do cristianismo.[2] Na verdade, todos os três concordam em descrever um evangelho da prosperidade que é facilmente ignorado, porque parece razoável para os cristãos que amam tanto a Deus quanto à realização dos sonhos de prosperidade.
Um evangelho da prosperidade mais sutil e brando
Para os que têm olhos para ver, os sinais da pregação atenuada da prosperidade estão em todo lugar no evangelicalismo. A rádio cristã oferece uma experiência “positiva”, “encorajadora”, com inúmeras canções incentivando os ouvintes a serem vencedores. As editoras cristãs vendem livros que ajudam os cristãos a terem uma melhor aparência, se sentirem mais confiantes e alcançar seu máximo potencial. Semelhantemente, Jeremias 29.11 e Filipenses 4.13 continuam a ser repetidos como mantras por cristãos que querem ter um impacto no mundo.
Mas, é claro, esses exemplos são apenas sintomas, e a solução não é demonizar os comerciantes cristãos. Em vez disso, devemos todos aprender a pensar mais profundamente sobre o conteúdo da nossa fé e refutar os ensinos errôneos do atenuado evangelho da prosperidade (Tito 1.9).
Cinco marcas registradas da pregação atenuada da prosperidade
Para auxiliar nesse discernimento, deixe-me traçar cinco marcas registradas da pregação atenuada da prosperidade, especialmente como elas aparecem em sermões e livros.
  1. A pregação atenuada da prosperidade eleva as “bênçãos” acima do bendito Deus.
  2. Em primeiro lugar, a pregação atenuada da prosperidade eleva as “bênçãos” acima do bendito Deus. Quando as bênçãos são divorciadas do Deus trino, tudo se compromete. A verdadeira bênção reside somente em Deus, o “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6.15). Por consequência, buscar a bênção de Deus requer buscar a ele mesmo (Is 55.6-7; Mt 6.33). Cristo é o verdadeiro tesouro (Mt 13.44-46), e qualquer busca de bênção que torna Deus um meio para outro fim é errônea e idólatra.
  3. A pregação atenuada da prosperidade separa os versículos da estrutura redentiva da Bíblia.
  4. Em segundo lugar, a pregação atenuada da prosperidade separa os versículos da estrutura redentiva da Bíblia. Quando os pregadores apresentam versículos isolados como princípios consagrados pelo tempo para reivindicar as bênçãos de Deus, o resultado é um evangelho falsificado. Ao invés de ligar todas as bênçãos a Cristo, eles aplicam diretamente versículos individuais às pessoas de hoje.
    Tal promessa motiva o forte e extingue o fraco. A menos que uma passagem seja corretamente relacionada à estrutura redentiva da Bíblia, versículos, como Salmo 1.3, se tornam esteiras nas quais os cristãos sinceros e zelosos se exaurem. A genuína pregação expositiva cristocêntrica previne esse tipo de manipulação textual e protege contra o evangelho da prosperidade atenuado.
    Mais especificamente, a pregação atenuada da prosperidade se deleita nas promessas tangíveis do Antigo Testamento.[3] O erro é frequentemente o de prometer bênçãos da antiga aliança para os santos da nova aliança. Sempre que lemos o Antigo Testamento, como intérpretes fiéis, devemos ver como as promessas primeiramente se relacionaram a Israel e seu estado teocrático; segundo, a Jesus, que cumpriu perfeitamente a lei (Mt 5.17); e em terceiro lugar, a nós. Por vivermos sob a nova aliança, sempre haverá continuidade e descontinuidade entre a promessa do Antigo Testamento e seu cumprimento contemporâneo. Os pregadores devem aprender como interpretar tais textos antigos nos níveis textual, histórico e canônico.[4] Semelhantemente, igrejas saudáveis devem aprender a ver como cada bênção é encontrada relacionando-a a Jesus Cristo, o mediador da nova aliança.
  5. A pregação atenuada da prosperidade deprecia a maldição que Cristo suportou e a bênção do Espírito Santo.
  6. Terceiro, a pregação atenuada da prosperidade deprecia a maldição que Cristo suportou e a bênção do Espírito Santo. Na Bíblia, bênção não é uma ideia amorfa. Deuteronômio 27-28 especifica o conteúdo das bênçãos e maldições da aliança mosaica. Citando tais versículos, os atenuados pregadores da prosperidade anunciam bênçãos divinas através de uma maior obediência, mas ignoram as letras miúdas. Apenas um homem obedeceu a Deus tão perfeitamente a ponto de merecer a bênção de Deus (Hb 10.5-10). E pela obediência pactual de Jesus, ele foi sentenciado à morte em uma cruz romana, amaldiçoado pelos pecados do seu povo (Gl 3.10-13).
    Talvez o maior problema com a pregação atenuada da prosperidade é a maneira como ela minimiza a cruz de Cristo, em vez de adorar o Bendito que suportou a ira de Deus em nosso lugar (Gl 3.13). Os atenuados pregadores da prosperidade frequentemente falam sobre o que você pode fazer para experimentar o favor de Deus, mas passam longe da cruz, ignorando o fato de que cada dom espiritual foi assegurado para o crente por Jesus, que nos dá o seu Espírito como a principal bênção (Gl 3.14; Ef 1.3). Embora eles não neguem a via de salvação descrita em Romanos, eles estão dirigindo em outra estrada.
  7. A pregação atenuada da prosperidade depende de técnicas terapêuticas prescritas pelo pastor.
  8. Quarto, a pregação atenuada da prosperidade depende de técnicas terapêuticas prescritas pelo pastor. Ao minimizar o evangelho, os atenuados pregadores da prosperidade preenchem o vácuo com um prato cheio de técnicas terapêuticas. Com a linguagem de Sião, eles enfatizam as boas obras do crente. Embora não neguem explicitamente a salvação pela graça através da fé, pastores que repetidamente insistem em dicas de vida, técnicas e estratégias para santo sucesso minam a fé que foi uma vez por todas entregue aos santos.
  9. A pregação atenuada da prosperidade aborda amplamente problemas da classe média.
  10. Enquanto que as primeiras quatro marcas registradas possam, de muitas maneiras, serem aplicadas tanto à violenta quanto à atenuada pregação da prosperidade, uma diferença surpreendente diferença permanece. Enquanto que a pregação violenta da prosperidade convida os seguidores a “declararem” e “reivindicarem”, os a pregação atenuada da prosperidade inspira o movimento ascendente para alcançar os sonhos. Na primeira, boa saúde e fortes finanças provam a salvação tangível de Deus; na segunda, os pregadores proclamam uma religião de soluções terapêuticas. Para citar apenas um dos mestres dessa prosperidade atenuada: “Se eu creio no retorno sobrenatural do ato de dar? Sim, senhor! Se eu creio que Deus abençoa dízimos e ofertas? Sim, eu creio. Mas por que deveríamos ensinar vocês a pedir por um carro sem ensinar a respeito do pagamento do carro e das taxas de juros de financiamento?”[5]
    Em poucas palavras, a mensagem de T.D. Jake promete o mesmo ouro através de uma diferente linha de crédito: superabundante fé misturada com obras metódicas. Resumindo, essa pregação atenuada da prosperidade apela para pessoas de classe média que estão muito ocupadas vivendo para examinar uma mensagem que reafirma suas próprias aspirações naturais de sucesso. Tragicamente, “crentes” que engolem esse evangelho falso podem permanecer ignorantes de sua maior necessidade — expiação pelos pecados diante de um Deus santo — a menos que confrontados com o verdadeiro evangelho de Jesus Cristo.
Uma melhor teologia da bênção
No fim das contas, a tragédia do evangelho da prosperidade atenuado é a maneira com que ele foca tanto em melhorias terrenas. Ao oferecer aos cristãos a melhor vida possível agora, as realidades eternas do céu e do inferno são perdidas. Isso traz a possibilidade muito real que muitos que ouvem o evangelho da prosperidade atenuado estão e continuarão estando perdidos.
Como resposta, os cristãos devem aprender a reconhecer o erro da pregação atenuada da prosperidade, e nós — especialmente pastores — devemos trabalhar em constante oração para libertar outros dela. Primeiro devemos confessar as maneiras em que os desejos por sucesso terreno laçaram os nossos próprios corações. Segundo, devemos apresentar o evangelho bíblico, que excede em muito a oferta de sucesso santo. Devemos exaltar as riquezas do verdadeiro evangelho e confiar que quando as ovelhas de Deus ouvem o seu chamado para arrependerem-se de seus pecados e se voltarem para Cristo, elas também abandonarão a sua atenuada prosperidade e receberão como dom gratuito o único tesouro que conta — Jesus Cristo, o Único Rei Bendito.
[1] Sobre a diferença entre os evangelhos da prosperidade violento e atenuado, veja o estudo revelador de Kate Bowler, Blessed: A History of the American Prosperity Gospel (Nova York: Oxford University Press, 2013), 78.
[2] Em ordem, Christian Smith com melinda Lundquist Denton, Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers (Nova York: Oxford University Press, 2006); Michael Horton, Christless Christianity: The Alternative Gospel of the American Church (Grand Rapids: Baker, 2008), esp. 65-100; Stephen J. Nichols, Jesus Made in America: A Cultural History from the Puritans to The Passion of the Christ (Downers Grove, IL: IVP Academic, 2008), esp. 173-97.
[3] Veja uma lista de tais versículos no artigo de Michael Schäfer: “The Prosperity Gospel and Biblical Theology.”
[4] Para um útil tratamento dessa abordagem, veja Edmund Clowney, Preaching and Biblical Theology(Phillipsburg, NJ: P & R, 1979).
[5] Citado em Bowler, Blessed, 119.
Tradução: Alan Cristie
David Schrock
AutorDavid Schrock
David Schrock é pastor sênior da Calvary Baptist Church em Seymour, Indiana.